Reinações de Zezé: comparações entre dois clássicos da literatura infantojuvenil brasileira

Publicado em 1968, quase cinco décadas depois do lançamento de Reinações de Narizinho, a obra Meu pé de laranja lima, de José Mauro de Vasconcelos, foi também a seu tempo um grande sucesso editorial e, como Lobato, é publicada e lida até os dias atuais.

Dois sucessos editoriais, duas histórias feitas para crianças, com crianças como personagens principais: o que mais pode haver de comum entre as duas obras? O objetivo deste artigo é encontrar essas semelhanças e explicitar as diferenças, comparando os textos e estabelecendo, sempre que possível, conexões entre as visões de infância e mundo escolhidas pelos autores.

Com uma história linear e narrada em terceira pessoa, Reinações de Narizinho conta as aventuras de Narizinho, Pedrinho e a turma do Sítio do Picapau Amarelo, lugar mágico onde realidade e fantasia se misturam e onde as crianças têm espaço e liberdade para explorar o ambiente em que vivem e possuem uma relação baseada em amor e respeito com os adultos da história. A visão de criança apresentada por Lobato privilegia traços comuns às crianças, como curiosidade, peraltice e farta imaginação. A relação amorosa entre os personagens está presente desde a primeira página, quando, ao apresentar D. Benta e Narizinho, Lobato diz que “Dona Benta é a mais feliz das vovós, porque vive em companhia da mais encantadora das netas.” (LOBATO, p. 7).

Meu pé de laranja lima, um enredo autobiográfico, também traz uma história linear. Narrada em primeira pessoa, ao contrário de Reinações, o texto de José Mauro de Vasconcelos é marcado por uma realidade dura, onde o protagonista, Zezé, vive com a família uma relação marcada pela violência e pelo desrespeito ao status de criança. A criança, apesar de ser a protagonista da história, é vista como um ser inferior, sem direitos, e sem reconhecimento nenhum por parte dos adultos de sua família. Com essa negligência, Zezé é uma criança sem autoestima, que se vê como Menino Diabo, como alguém sem nada de bom a oferecer. Ao contrário da apresentação amorosa de Reinações, aqui o narrador apresenta a visão que os outros personagens têm dele: “(…) e vivem dizendo que eu era o cão, que eu era capeta, gato ruço de mau pêlo” (VASCONCELOS, p. 11), “— Eu não presto para nada. Sou muito ruim. Por isso é o diabo que nasce pra mim no dia do Natal e eu não ganho nada. Sou uma peste. Uma pestinha. Um cachorro. Um traste ordinário. Uma das minhas irmãs me disse que coisa ruim como eu não devia ter nascido…” (VASCONCELOS, p. 122).

Há, no livro, outros exemplos de personagens infantis que evidenciam o desrespeito e a violência com a criança. Totoca, o irmão mais velho de Zezé, apesar de ter apenas nove anos, toma para si a responsabilidade de ensinar a vida ao irmão. “Totoca vinha me ensinando a vida. E eu estava muito contente porque meu irmão mais velho estava me dando a mão e ensinando as coisas. Mas ensinando as coisas fora de casa.” (VASCONCELOS, p. 11).

É por meio de Totoca que Zezé aprende, entre outras coisas, a atravessar a Rio-São Paulo e os difíceis problemas da vida adulta: “— Você que quer saber tudo não desconfiou o drama que vai lá em casa. Papai está desempregado, não está? Você é muito criança para saber dessas coisas tristes. Mas eu vou ter que acabar ajudando missa para ajudar em casa.” (VASCONCELOS, p. 16).

Esses exemplos reforçam a repressão ao ser criança na história de Vasconcelos e fazem com que o leitor seja levado, em alguns momentos, a aceitar as amarguras, desilusões e toda a sorte de violências muitas vezes comuns à vida adulta, mas que são uma afronta à imagem de infância difundida atualmente. Essa repressão não existe em Lobato, mas as crianças apresentam em toda a obra atitudes típicas dos adultos. É como se a forte presença da fantasia e a ausência de situações de perigo autorizassem a ambiguidade criança/adulto presente na obra.

Ainda sobre a dualidade adulto/criança destaca-se em toda a leitura de Meu pé de laranja lima a discrepância entre a idade de Zezé – apenas cinco anos – e a noção de maturidade que seus responsáveis esperam dele. Em toda a história, é exigida uma postura que não condiz com a idade do personagem. As traquinagens, que tanto exasperam seus pais, irmãos e vizinhos, não são absurdas, são atitudes que podemos considerar comuns a qualquer criança, sobretudo se as compararmos com as aventuras da turma do sítio: enquanto Zezé é castigado por qualquer coisa (cantar música com palavrão, cortar o varal da vizinha), as crianças do sítio passam o dia soltas e, quando voltam para a segurança do lar, compartilham suas experiências com Dona Benta.

São contrastantes os ambientes retratados nas duas obras: enquanto a obra de Lobato se passa em um ambiente rural e idílico – “numa casinha branca, lá no sítio do Picapau Amarelo” (LOBATO, p. 7) –, a história de Zezé está localizada na zona urbana, com suas fábricas, carros, estradas e comércio. Apesar de a casinha branca também estar presente, ela é menor, longe (do outro lado da estrada) e por mais encantadora que seja, é um constante lembrete das dificuldades financeiras da família. A crueza da realidade é intensificada pelas descrições de Zezé do espaço em que vive: “Pensei na Fábrica um momento. Não gostava dela. O seu apito triste de manhã tornava-se mais feio às cinco horas. A Fábrica era um dragão que todo dia comia gente e de noite vomitava o pessoal muito cansado.” (VASCONCELOS, p.63-64).

Contrastantes também são as visões de crianças presentes nas duas obras: em Reinações, Narizinho, sete anos, e Pedrinho, dez, são crianças cujo protagonismo salta aos olhos. Lobato dá voz às crianças e as coloca em pé de igualdade com os adultos. Elas são as protagonistas das histórias que inventam e têm, principalmente no caso de Pedrinho, autonomia para ir e vir e autoridade para decidir e comandar: “Sigo para aí no dia 6. Mande à estação o cavalo pangaré e não se esqueça do chicotinho de cabo de prata que deixei pendurado atrás da porta do quarto de hóspedes.” (LOBATO, p. 29).

Já Zezé vive sempre à margem dos adultos. Apesar de ir e vir com frequência, o que propicia a entrada de personagens secundários que trarão à sua vida o afeto negado em família, Zezé o faz quase sempre escondido, criando estratégias que o livrem das surras constantes que recebe em casa. Durante toda a obra a relação de Zezé com os adultos da família é assim: repleta de incompreensão, violência e fuga. As exceções estão na relação com a irmã de quinze anos, Glória, que tenta protegê-lo e educá-lo e na relação de cumplicidade com o tio Edmundo, que consegue enxergar nele sua inteligência e criatividade. No entanto, ambos não possuem a força necessária para realmente interferir na existência de Zezé.

A criança retratada por Vasconcelos não tem voz e nem reconhecimento em casa. Zezé é sensível e extremamente inteligente, mas essas qualidades só são reconhecidas e admiradas pelos adultos com quem convive fora de casa: o cantor Ariovaldo, a professora Cecília e Manuel Valadares, o Portuga. Esses personagens trazem, cada um à sua maneira, afeto, companheirismo e compreensão. Suas características os aproximam dos personagens adultos do sítio, como Dona Benta, Tia Nastácia, e até mesmo o Visconde de Sabugosa. Assim como os personagens do Sítio dão outro valor às crianças,  os personagens secundários de Vasconcelos são responsáveis pela formação de Zezé e mostram reconhecimento pelos seus feitos e admiração pelas suas qualidades.

Esse reconhecimento e admiração são os elementos que conseguem penetrar no muro de proteção erguido por Zezé e que o sufoca. Se, no cantor Ariovaldo, Zezé descobre a leveza e a cumplicidade, a professora Cecília e Portuga são os principais responsáveis pela desconstrução de sentidos pela qual a criança passa, pela transformação na visão que ele tem de si próprio e pela sua formação moral. Cada um traz novos sentidos para a sua existência.

Com a professora, Zezé aprende a dizer a verdade sem medo de ser castigado: “– (…) Quando o portão está só encostado, eu entro depressa e roubo uma flor. (…) – Sim. Mas isso não é direito. Você não deve fazer mais isso. Isso não é um roubo, mas já é um ‘furtinho’.” (VASCONCELOS, p. 76). A relação deles é permeada de carinho, confiança e ternura: “A coisa comovente era a minha professora, D. Cecília Paim. Podiam contar a ela que eu era o menino mais endiabrado da minha rua, que ela não acreditava. Como também não acreditaria que ninguém conseguia dizer mais palavrões do que eu. (…) Ela tinha tamanha ternura por mim que eu acho que ficava bonzinho só para ela não se decepcionar comigo.” (VASCONCELOS, p. 110). Zezé reconhece a autoridade que a professora representa e, ao contrário da relação que tem com sua família, consegue construir uma relação repleta de admiração.

Com Manuel Valadares, Zezé constrói uma relação permeada de verdade e respeito. É interessante acompanhar a inversão de papeis que permite a reaproximação dos personagens após um começo extremamente violento. Zezé, no início humilhado em seu embate com o temido Portuga, deseja crescer logo para vingar-se do homem. Já Manuel Valadares, retratado como um personagem duro, temido por todas as crianças, conquista Zezé com suas atitudes brincalhonas e provocativas que fazem com que o menino reveja sua visão e permita uma aproximação entre os dois. Com Valadares, Zezé começa a se reconciliar consigo próprio e com os adultos que o cercam. É por meio dessa amizade improvável que Zezé se transforma: “E os dias andaram sem pressa e, sobretudo, muito felizes. Até que lá em casa começaram a notar a minha transformação. Eu já não fazia tantas travessuras e vivia no meu mundinho de fundo de quintal. Verdade que algumas vezes o diabo vencia os meus propósitos. Mas já não dizia tantos palavrões como antigamente e deixava em paz a vizinhança.” (VASCONCELOS, p. 125).

Na obra de Lobato, a fantasia faz parte da realidade e ultrapassa o universo infantil. Já na obra de Vasconcelos, a fantasia desempenha um papel bastante diferente, mas igualmente importante: é por meio da fantasia que Zezé tenta dar ao irmão caçula a ternura e a proteção que não teve:

“– Cadê a pantera negra?

Era difícil recomeçar tudo sem acreditar nas coisas. A vontade era contar o que de fato existia. (…)

– Só ficaram as duas leoas, Luís. A pantera negra foi passar as férias na selva do Amazonas.

Era melhor conservar a sua ilusão o mais possível. Quando eu era criancinha também acreditava naquelas coisas.” (VASCONCELOS, p. 184).

Para o irmão, ele é capaz de criar zoológicos, países longínquos, aventuras com personagens de cinema, mesmo sabendo que essa ilusão é passageira. Zezé amadurece precocemente e o leitor acompanha esse amadurecimento à medida que ele vai abrindo mão da fantasia: o passarinho interno que deixa de cantar, o zoológico que perde a graça, o pé de laranja lima, que deixa de ser Xururuca para ser apenas um pé de fruta como outro qualquer.

Apesar de escrito mais de 40 anos após Reinações de Narizinho, as crianças retratadas em Meu pé de laranja lima dividem o mesmo período cronológico de Narizinho e sua turma, já que a história se passa no fim da década de 20. Esse período é marcado no país pela criação e difusão das escolas e a consolidação da visão moderna da criança, surgida com a nova noção de família como núcleo de convergência das relações afetivas. (ZILBERMAN, 1985). As obras de Lobato vão ao encontro dessa nova visão, ampliando esses conceitos e legitimando a importância da criança para a sociedade. É interessante notar que “esse conceito de família nuclear é de certa forma, superado em Lobato, pois a construção da família no sítio é atípica, não existe um patriarca, e a mãe é mencionada esporadicamente.” (SILVA, 2008, p. 26). Esse fato engrandece a obra de Lobato e é um dos pontos que fazem com que suas histórias sejam atemporais.  

Meu pé de laranja lima completa cinquenta anos em 2018. É um dos grandes sucessos editoriais da literatura infanto-juvenil brasileira e, apesar de não ter sido reconhecido pela crítica erudita, encantou e continua conquistando vários leitores no mundo todo. Em texto publicado na edição comemorativa do livro, o premiado escritor Luiz Antonio Aguiar (2017) lembra que a extensa obra de José Mauro de Vasconcelos, tão variada, é modelo de composição literária exemplar, que busca não uma inovação formal, mas um chamamento emocional, empático, do leitor com a obra. E reforça que Vasconcelos está longe da fórmula água com açúcar, mesma conclusão da crítica Nelly Novaes Coelho, que destaca “a habilidade com que o autor sustenta o drama com o ludismo e a fantasia” (2006, p. 387).

Ao contrário da obra de Lobato, na qual os personagens aparentam serem sempre os mesmos, não importa a aventura que tenham vivido, em Meu pé de laranja lima, o sofrimento, a carência econômica e afetiva e, sobretudo, o luto, transformam o personagem e dão um peso à sua existência, que passa despercebida pela sua família e só é sentida pelo leitor. No final, a expectativa de uma melhor condição financeira não é capaz de apagar anos de negligência e nem de atenuar a dor pela perda do amigo. Uma dor tão maior, porque ele a carrega sozinho. Até a imaginação, que funcionava como alento para os momentos mais difíceis, deixa-o sozinho. A última frase, inexplicável ao pai, faz total sentido ao leitor, como se Zezé e o leitor compartilhassem de um segredo: “– Já cortaram, Papai, faz mais de uma semana que cortaram o meu pé de laranja lima.” (VASCONCELOS, p. 189).

Por Cristiane Santos Teixeira – bibliotecária e pós-graduanda do curso Livros, Crianças e Jovens: teoria, mediação e crítica. Nas visitas a bibliotecas na infância encontrou a inspiração para sua profissão. Apaixonada por literatura infantil, atua em biblioteca escolar há mais de 15 anos e busca, em seu dia a dia, levar seu encantamento com os livros para o maior número possível de pequenos leitores.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGUIAR, Luiz Antonio Aguiar. A literatura de O meu pé de laranja lima. In: VASCONCELOS, José Mauro de. O meu pé de laranja lima – 50 anos. São Paulo (SP): Melhoramentos, 2017. E-Book.

COELHO, Nelly Novaes. Dicionário crítico da literatura infantil e juvenil brasileira. 5. ed. rev. e atual. São Paulo (SP): Companhia Editora Nacional, 2006.

LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho. Ilustrações de Manoel Victor Filho. 48. ed. São Paulo (SP): Brasiliense, 2002. 168 p. (Sítio do Picapau Amarelo).

SILVA, Luciana França Alborghetti e. Representação de infância em Monteiro Lobato. 2008. 89 f. Dissertação (Mestrado) – Universidade do Extremo Sul Catarinense, Programa de Pós-Graduação em Educação, Criciúma, 2008.

VASCONCELOS, José Mauro de. O meu pé de laranja lima. 94. ed. São Paulo (SP): Melhoramentos, 2001. 193 p.

ZILBERMAN, Regina. A literatura infantil na escola. São Paulo: Global, 1985.