Bem lá no alto

Bem lá no alto

Escrito por: Susanne Straber

Ilustrado por: Susanne Straber

Traduzido por: Julia Bussius

Editora: Companhia das Letrinhas

Ano de Lançamento: 2016

Resenha

Bem lá no alto daquela casinha tem um bolo que parece apetitoso.

Bem lá embaixo na calçada tem um urso com bastante apetite.

Na quarta capa, outro detalhes parecem anunciar que há muito mais interessados em saborear essa delícia.

E agora? O que pode acontecer?

Nesse conto de Susanne Straber, texto e imagem vão construindo uma narrativa divertida, que convida à participação do leitor. Afinal, bem diante das páginas do livro pode haver uma criança também interessada em entrar na brincadeira.

(Resenha produzida pela equipe A Taba, especialmente para o exclusivo Mapa de Exploração da obra.)
Como foi a nossa leitura?

Vi esse livro pela primeira vez na Revista Crescer. A foto mostrava uma das ilustrações e ficou claro que tratava-se de uma história sobre amizade e trabalho em equipe.

Ao receber o livro, como sempre, guardei para entregá-lo ao Eduardo. Sempre mostro a ele comentando que o titio dos Correios trouxe e pergunto o que é. Ele logo responde “livrinho!”. Essa expectativa dele em conhecer o que está por vir é contagiante.

A mim sempre chama atenção quando a obra tem um formato ou tamanho diferente, como Fico à espera, Ter um patinho é útil ou Selma, por exemplo. Bem lá no Alto é um livro comprido. Pela capa, podemos inferir apenas a necessidade de altura para distanciar o urso de seu objeto de desejo. Mais do que isso, o formato deve-se em grande parte a evidenciar outros aspectos por meio das ilustrações, como por exemplo a escadinha formada pelos animais e a realidade quanto às suas proporções em relação à casa e a eles mesmos (porco menor que urso, cachorro menor que porco, coelho menor que cachorro….sapo menor que a galinha).

A narrativa de Bem lá no Alto é tipicamente acumulativa, mas também repetitiva. O urso aparece, mas não consegue alcançar o bolo. Então surge o porquinho, mas o bolo continua bem lá no alto e eles não alcançam. Chega o cachorro, mas ainda não dá. Vem o coelho, depois a galinha. Por último chega o sapo. O bolo continua bem lá no alto e a turma toda, bem lá embaixo. A cada página, esta estrutura permite à criança se antecipar ao que está por vir. Isso a faz reter mais facilmente a história, assumindo seu papel de leitora. E foi exatamente isso que aconteceu por aqui.

Quando líamos, Eduardo observava as ilustrações e muitas vezes lembrava dos bichos da história, sempre demonstrando grande interesse pela parte em que chegava a criança. Talvez porque lembrasse, da primeira leitura que fizemos, que era ela quem daria o bolo aos animais.

As várias onomatopéias do texto como VUPT, OPA, UPA, FLAP, PÓIM, ZAPT e PLAM, costumam agradar os pequenos, assim como o som dos animais. Eduardo gosta muito quando imitamos os animais, principalmente os mais diferentes, (um “pocotó” relinchando é o preferido dele!). Ao ler Bem lá no Alto, imitei pra ele quase todos os personagens que queriam o bolo: porco (óinc óinc), galinha (cocóó, cocóó) e sapo (croac croac). Ele sempre fica surpreso ao nos ver fazendo isso. Histórias com animais são muito apreciadas por crianças pequenas e com ele não é diferente.

Com fonte em caixa alta, a narrativa possui ações recorrentes e destaca e expressões que se repetem. Isso favorece principalmente a que a criança participe, pois memoriza mais facilmente o enredo. Depois das primeiras leituras, Eduardo passou a completar as frases que aparecem a cada vez que um novo ajudante surge na história e que localizam o bolo (“bem lá alto”) e os animais (“bem lá embaixo”) sempre falando a palavra bem de forma esticadinha e pausadamente (beeemmmm).

Na primeira vez que lemos, ao chegar na parte em que a janela se fechava, a expressão dele foi de desapontamento, de frustração. Não costumo ler os livros que recebemos da Taba antes de ler com ele, tampouco examino o mapa de exploração (Vejo, claro! Mas sempre depois). Como abrimos o pacote juntos, Eduardo quase sempre quer fazer a primeira leitura já neste momento. Gosto de ser surpreendida pela história junto com ele. Penso que mesmo que eu leia anteriormente, teremos sempre a oportunidade de fazer uma nova leitura a cada vez que tomarmos o livro nas mãos. É também uma forma de verificar como será a minha mediação com aquela obra, do quanto estou atenta para perceber os detalhes….

Quando chegamos nesta parte da janela se fechar, ao ver o desapontamento dele e, embora pudesse imaginar o final da história, ressaltei o fato do passarinho ter conseguido pegar a cereja do bolo. Ele pareceu mais conformado, ao menos o passarinho comeria um pedacinho….. Nesse momento, retomamos as páginas anteriores e vimos juntos que aquele sapeca passarinho, na rede elétrica, vinha se aproximando e que, assim como os bichinhos que estavam na calçada, também desejava aquele apetitoso bolo. Naquele ponto, pelo menos o passarinho tinha ficado feliz….

Surpresa então quando, na página seguinte, a criança aparece na porta com o bolo nas mãos! Os animais todos em pé, enfileirados um atrás do outro, esperando pelo bolo tão desejado. Observamos como os animais estendiam as patinhas (sapo e coelho) ou asinhas (galinha) para receber o bolo da criança. Nas vezes seguintes em que lemos o livro, com ele sentado no meu colo, o vi imitando os animais, fazendo o mesmo gesto com as mãozinhas estendidas….

Foi engraçado notar como Eduardo foi observando mais atentamente as ilustrações em outras vezes que lemos “o livro do urso”, como passou a chamá-lo. Aproveitei para mostrar a ele alguns detalhes: como cada animal que chegava observava o bolo lá em cima, como os animais mudavam de posição na escadinha para tentar alcançar o bolo, o tamanho (cada vez menor) de cada bichinho que chegava e o quanto o urso foi ficando cansado com o passar do tempo.

Também nas primeiras vezes em que lemos, senti falta de uma ou duas páginas a mais no final da história, que evidenciassem a partilha do bolo entre os personagens. Depois, julguei que não era necessário, que o encerramento dado pelo autor foi inteligente o suficiente para fazer os pequenos leitores entenderem que o bolo tão desejado seria sim compartilhado – ainda que a criança acessasse o livro sozinha, sem um adulto mediador. As ilustrações inclusive mostram isso sem o recurso do texto.

Talvez, eu tenha pensado assim pois na página em que a criança pega o bolo, sua expressão facial induziu-me a pensar que ela o esconderia, que comeria sozinha…., enfim, que os animais não teriam acesso a ele de forma alguma. Quando a criança aparece na porta com o bolo na mão, sua expressão é algo como “Está aqui, vou dividir com vocês!”, embora não esteja sorrindo. Pareceu-me que a história de “Bem lá no alto”, além de conter acumulação, possui um toque de engano. Eduardo, assim como eu, pode ter imaginado que a criança tomaria o bolo para si. Desapontado, naquele ponto, demonstrou empatia pelo urso, pelo porquinho, pelo cachorro….por todos que ficariam sem o bolo…. Ao ouvir uma história como essa, ele pôde entender que alguém pode estar enganando quando age de uma forma (pegando o bolo) mas pensa de outra (para levá-lo até os animais). Situações como essa, imagino, geram um misto de sentimento nas crianças, levando-as da frustração (e compadecimento) à euforia, pela felicidade do outro; como de fato acontece em tantas situações do nosso cotidiano e que não conseguimos – ou não paramos – para analisar e explicar a elas. Incrivelmente, os livros e as histórias nos ajudam nisso!

Refletir sobre a experiência de leitura desse livro com meu filho Eduardo me fez pensar o quanto nossas interpretações, como mediadores de leitura de nossos filhos, num primeiro momento devem ser preservadas. A forma como eles absorvem as histórias é um tesouro que eles precisam encontrar e interpretar sozinhos. Essa interpretação favorece a que se coloquem no lugar do outro, para entender sua intenção e seus sentimentos, por exemplo.

Exploramos as ilustrações de acordo com o que Eduardo já conhece, ou tem condições (e até curiosidade) de diferenciar, como as características físicas dos animais: “Quem está com a língua de fora?” “Quem tem rabo?”, “Quem tem crista?” “Quem tem as maiores orelhas?”, “Quem está de cabeça pra baixo?”, “Quem está de barriga pra cima?”. Eduardo observava, pensava um pouco e respondia. Ao final desse momento, disse-me: “o sapo não tem rabo mamãe?”. E eu respondi: “Sim filho, assim como o urso, você viu?”.

Olha uma ideia aqui!

Olha uma ideia aqui!

Tive vontade de criar o cenário da história com ele, montar a casinha com blocos e desenhar/pintar os animais em papel seda e colar em pedaços de papel cartão ou placas de isopor, no tamanho em que aparecem no livro mesmo, de modo que a gente consiga fazer a escadinha. Ainda não deu tempo, quem sabe daqui uns dias? E claro, com a participação dele!

Bem Lá no Alto veio pra gente pela assinatura bebê, mas é tão gostoso e leve que poderia se lido por crianças maiores também. Aquelas que poderiam observar inclusive a forma estratégica em que os animais se organizam: o sapo, aquele que pode pular e esticar a língua (para alcançar o bolo, é claro), por último!

 

Leia um trecho em pdf.

 

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Engenheira de Alimentos, atua como técnica de laboratório na UFFS em Cerro Largo – RS. Quando seu filho Eduardo nasceu, em 2014, descobriu na maternidade um caminho para retomar o gosto pela literatura infantojuvenil. Acredita que a leitura pode fortalecer laços entre pais e filhos e tenta, a cada dia, ser uma boa iniciadora dele nesse mundo das histórias infantis.

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