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Gabriela Irigoyen: o livro como objeto de arte

Uma das maiores alegrias de trilhar o nosso caminho é encontrar os companheiros de estrada. Com a Gabriela Irigoyen foi assim: procurávamos alguém para nos ajudar a pensar em uma embalagem criativa para nossos livros (projeto que ainda não conseguimos viabilizar) e descobrimos uma artista talentosa com um trabalho incrível.
Gabriela é carioca, formada em Belas Artes e – como nós – apaixonada por livros. Há dez anos dá aulas de encadernação e produção de livros artesanais. Já participou de exposições no Rio de Janeiro e em Paris, tendo sido convidada para ministrar, em janeiro do ano passado,  um workshop sobre seu trabalho na Ecole Intuit – uma das melhores escolas de Design Gráfico da capital francesa.
Nessa entrevista conversamos um pouco sobre o seu trabalho e sua paixão pelo livro como objeto de arte. Confira.

Como os livros entraram em sua vida?

Na verdade, eles são parte da minha história desde sempre. Minha casa era uma casa de leitores. Havia livros por toda parte e eles sempre ocuparam várias caixas quando fazíamos nossas mudanças.
Meu pai costumava ler muito. Ele sentava em uma cadeira e eu – do seu lado, mesmo antes de saber ler – abria um livro de cabeça para baixo e ficava imitando-o e fazendo-lhe companhia. Era um jeito de estar junto, de me aproximar do mundo dele.
Não havia censura. As obras ficavam espalhadas pela casa e a escolha era livre. Muitas vezes, eu abri livros que me assustaram e fechei-os logo em seguida. Anos depois, encontrei essas mesmas obras e consegui entendê-las. Mas, além do conteúdo, essa coisa física do formato, do cheiro, da textura do papel me atraía muito. Por isso, os livros, antes de tudo, sempre foram objetos que tiveram presença material na minha vida.

"O rio que nasceu em mim" / "The river that was born in me" Gabriela Irigoyen

“O rio que nasceu em mim” / “The river that was born in me”

E quando você passou de leitora a criadora de livros?

Eu queria fazer Belas Artes e desenhar, mas não sabia como viver disso.
Comecei fazendo gravuras, usando cadernos como suporte. Então, descobri que não conseguiria ser feliz se isso não fizesse parte da minha vida. E trabalhando com as imagens, criando desenhos, fui percebendo que essa coisa da narrativa que o objeto livro contém trazia muito potencial.
O livro é, ao mesmo tempo, múltiplo e único. Você pode abri-lo de frente para trás e vice-versa. Ou começar a vê-lo do meio também. Uma única página pode conter uma narrativa ou mesmo uma sequência delas. Essa multiplicidade me encantou. E quando fiz um curso de recuperação e restauro onde aprendi a desmontar os livros, percebi que era isso o que eu queria fazer: trabalhar com a estrutura desse objeto. Explorá-lo como suporte, mas sobretudo, como objeto, de modo que a forma dele também tivesse uma história para contar.

"A história da Colombina, do Pierrô e do Arlequim"

“A história da Colombina, do Pierrô e do Arlequim”

Isso é uma marca do seu trabalho…

Sim. Em 2012, quando fiz a minha primeira exposição “Amor de Livros” no Rio – Centro Cultural da Justiça Federal (RJ), explorei o livro em seus múltiplos formatos, abordando todos os elementos que compõem esse objeto: cor, miolo, costura, lombada, capa etc. Fiz 25 obras onde brincava com essas características. E foi um sucesso! Fazia muito tempo que não havia uma exposição focada no livro objeto.

Uma das obras da exposição "Amor de Livros"

Uma das obras da exposição “Amor de Livros”

Aliás, esse é um aspecto ainda pouco explorado pelas editoras, de um modo geral.

É. A gente ainda vê pouco o livro na sua materialidade. É possível ampliar muito a experiência que temos com esse objeto, sabe? Pendurá-lo, vê-lo ao contrário, observar sua costura, a textura e a forma das páginas…Tudo isso pode contribuir para a construção de sentido da obra como um todo. E quando acontece, é mágico! O livro fica maior. Mais rico.
Só que isso tem um custo e demanda tempo e disponibilidade para acompanhar o projeto. Coisa que nem todas as editoras podem bancar.
Além disso, exige conhecimento do processo gráfico e do processo artesanal de produção de um livro. E é difícil encontrar profissionais que tenham esse duplo conhecimento. Hoje em dia, a maior parte dos cursos de design não explora o uso dos materiais concretos. Fica apenas nos recursos digitais. Muitos dos alunos nunca desmontaram um livro. Não sabem como ele se materializa.

Gabriela e seus alunos no Workshop internacional da Ecole Intuit Lab em Paris, em 2014

Gabriela e seus alunos no Workshop internacional da Ecole Intuit Lab em Paris

Fale um pouco sobre o trabalho que desenvolveu no ano passado.

Em 2014 realizei em parceria com alguns artistas a série Unique.
A ideia surgiu do desejo de apresentar originais em livros cofeccionados à mão, também únicos.
Para isso, convidei alguns artistas para escolherem no site um dos cadernos criados por mim para, no tempo que quisessem e quando quisessem, ilustrarem esse livro.
Não houve urgência. Foi um projeto criativo.
Para a construção de uma obra de arte, é preciso liberdade. Tem que ter esssa coisa de olhar, não gostei, vou ver depois.
O trabalho resultou em uma exposição coletiva com 12 artistas, chamada Únicos, no espaço Glicerina, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro.
A proposta era explorar essa coisa que é a relação física com o livro.
Outro dia, alguém colocou que quando acaba um livro está se despedindo de um amigo. Fica com saudade de segurá-lo, de olhar para ele. No meu caso, quando fico com saudade de um trabalho, deixo-o na mesa de cabeceira para ir me despedindo aos poucos.
Isso deve estar presente também no processo de construção de uma obra.
Quem convive com livros sabe que vai se construindo uma relação pessoal com esse objeto. Às vezes é uma dedicatória que te traz uma lembrança ou coisas que esquecemos no livro, palavras sublinhadas… Tudo isso compõe a materialidade desse objeto. Tudo isso conta história.
Esse foi o mote da série Unique.

Série Unique

Milivro com desenhos de Fernanda Fonseca para a Série Unique

Houve outras exposições além dessa série?

Sim. Comecei o ano expondo meus livros em Paris em uma mostra chamada “Graphisme Sans Frontière” na galeria Phillipe Lawson em Paris. Foi uma coletiva com artistas e designers de vários países, como Espanha, Rússia e México.
Depois, em agosto foi lançando o livro “Little Book of Book Making”, da autora Charlotte Rivers (Editora Random House) que publicou meu perfil com fotos do meu trabalho e de mais 29 artistas que trabalham com o livro e o design do livro.
E para completar, em setembro, houve a exposição “O-books”, que aconteceu em um casarão super charmoso no Bairro do Botafogo. Ou seja, foi um ano de muito trabalho, mas que também trouxe bastante visibilidade para minhas criações.

E quais são os projetos para 2015?
Tenho algumas exposições previstas e pretendo continuar desenvolvendo workshops sobre encadernação e criação de livros. Toda a agenda e projetos são divulgados periodicamente em meu site  e na minha pagina no Facebook.




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Eric Platas disse:

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