É possível ler, mesmo sem saber ler?

Todas as pessoas que convivem com crianças sabem que elas percebem, desde cedo, a importância que a palavra escrita tem em nosso mundo. E por isso, tão logo aprendem a falar e se comunicar com clareza, começam a alimentar o desejo de também aprender a ler.

Nas famílias nas quais os livros fazem parte do cotidiano e encontram-se disponíveis, é comum presenciarmos bebês narrando – a seu modo – os textos das obras que são lidas por seus pais. E depois, assim que dominam a fala, começam também a repetir os textos ouvidos anteriormente, em especial aqueles que possuem uma estrutura repetetiva, que favorece a memorização do enredo.

É por isso que os chamados contos de repetição e acumulação são textos privilegiados para o trabalho com a formação de novos leitores. Especialmente porque resgatam, em sua estrutura, aspectos característicos das narrativas de tradição oral muito antigas, das histórias contadas e recontadas ao longo de muitos anos, atravessando gerações. Contos que também foram acumulando novos elementos, conforme o narrador e o contexto em que eram contados. Ou seja, repetir e acumular faz parte do inconsciente coletivo que permeia os atos de escrever, ler e contar histórias.

Os livros de contos de repetição e acumulação ajudam os pequenos leitores a conhecerem melhor aquilo que estão lendo, aprendendo a estrutura das histórias, reconhecendo palavras e outros elementos que se repetem, além de tornarem o processo da leitura muito parecido com um jogo, no qual, a cada momento, um novo aspecto pode ser acrescentado e, quem sabe, surpreender o leitor.

Nas histórias de acumulação, como em “O grande rabanete”, há sempre um elemento que desencadeia a ação (no caso, o desejo de comer o rabanete) e a repetição de uma mesmo acontecimento (tentativa de arrancar o rabanete) realizada por diferentes personagens que vão se somando ao propósito inicial que impulsionou a narrativa. Essa estrutura ajuda a criança a antecipar o que vai acontecer, com base na repetição, tornando mais fácil a memorização e a compreensão do texto. Dessa forma, podem participar mais da leitura, inclusive assumindo o papel de leitores, mesmo sem saber ler.

Conheça outros livros de contos de acumulação selecionados pela equipe do Leitura Em Rede:

leitura_em_rede_grao_de_milhoGrão de Milho é uma criança muito pequena e corajosa, mas longe de se lamentar do seu tamanho, ele quer sair e fazer coisas para ajudar seus pais, e também para se aventurar um pouco. Para não ser pisoteado, Grão de Milho usa uma estratégia para chamar atenção dos caminhantes, ele canta bem alto uma quadrinha muito divertida que assinala a sua presença onde quer que passe. Infelizmente a vida no campo também tem seus imprevistos, e o pequeno termina por se complicar, para desespero de seus pais.
A autora, a espanhola Olalla Gonzáles, adaptou Grão de Milho de um conto popular, e o suiço Marc Targer ilustrou a história com traços simples e divertidamente coloridos.

 

 

 

Leitura em rede - Uma girafa e tantoImagine ter uma girafa por animal de estimação! Mais do que isso, imagine sair para brincar com esse “bichinho” e isso se transformar numa aventura em que aparecem uma cadeira, um chapéu de rato, uma flor, uma vespa, uma bicicleta furada… Esses e outros elementos vão surgindo ao longo de Uma girafa e tanto e sendo anexados ao animal, construindo um jogo de repetição, que retoma o item anterior e lhe acrescenta um novo elemento, movimento que contribui para a ampliação do vocabulário e da concentração dos pequenos.
A cada item que se acrescenta à história, criada toda em branco e preto, novos tons vão sendo dados a ela por seu escritor e ilustrador, o americano Shel Silverstein. Ressalta-se, ainda, a tradução do mineiro Ivo Barroso, que soube manter viva a graça poética do livro, escolhendo as palavras com cuidado, para que a rima continuasse envolvente.

 

 

Leitura em rede - A casa sonolentaA casa sonolenta faz parte da coleção Abracadabra que inclui outras obras interessantes da autora americana Audrey e de seu marido ilustrador Don Wood. Apresenta um enredo acumulativo que encanta as crianças e as repetições dão um tom sonolento a leitura. A cada página novos personagens aparecem para dormir na cama até que uma pulga saltitante pica o rato e começa a acordar todos. A ilustração merece destaque, pois as cores utilizadas se modificam de acordo com a atividade na casa, mais sombria para o sono das personagens e mais viva para quando estão acordadas.

 

 

 

 

leitura_em_rede_o_grande_rabaneteO conto de Tatiana Belinky, ilustrado por Claudios, trabalha com a memória e fazem da história um treino cumulativo de informações para serem repetidas.
A frase curta do início da história cresce com a chegada de outros personagens que ajudam o avô a tirar o rabanete imenso da terra e formam um “cordão” de ajuda e de frases.
As ilustrações também ajudam  compor a diversão e a compreensão de aspectos das relações humanas, como solidariedade, trabalho em equipe, divisão de tarefas, ajuda mútua… com muito bom humor.

 

 

 

 

leitura_em_rede_o_nabo_gigante Tatiana Belinky se inspirou nesse tradicional conto russo para escrever “O grande rabanete”. Na história de Aleksei Tolstói, o desafio é retirar da terra um nabo que cresce demais e fica gigante. Para isso, será necessário recorrer à ajuda de todos os animais da floresta. Com imagens lindas, que acrescentam detalhes à narrativa, o livro pode ser uma ótima oportunidade para conversar sobre como as boas histórias atravessam o tempo e viajam por muitos lugares, aproximando culturas de países tão distantes, como o Brasil e a Rússia.

 

 

 

 

 

leitura_em_rede_o_caso_do_bolinhoMais um conto cumulativo escrito por Tatiana Belinky. Nessa história, o protagonista é um bolinho delicioso que sai rolando da janela da cozinha e desafia o apetite de muitos personagens repetindo uma curiosa canção que enche a todos de água na boca e, ao mesmo tempo, garante que o tal bolinho sempre saia ileso. Até encontrar alguém mais esperto do que ele.

Quem será?