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Memórias literárias: Daisy Carias e a leitura de mãe para filhos

Enquanto Daisy esperava pela chegada de Francisco, ganhou de sua mãe um presente: a caixa com os livros de sua infância! Esse tesouro foi redescoberto e, ainda na barriga, Fran começou a ouvi-la contar as histórias que ela conheceu quando criança.

Daisy Carias é jornalista e criadora do blog A cigarra e a formiga, em que compartilha as leituras que faz com os filhos Francisco e Vinícius. Ela foi uma das primeiras assinantes do Clube de Leitores A Taba e agora se juntou à nossa equipe de especialistas para ajudar no trabalho de leitura e seleção dos livros indicados para nossos assinantes.

Confira nossa conversa sobre as memórias literárias da Daisy. Uma delícia ver quanto os momentos de leitura da infância ficam marcados!

A Taba: Puxando pela memória, consegue dizer como e quando se deu sua formação como leitora?

Daisy: Confesso que minha memória não é das melhores, então não lembro de muita coisa da minha infância – mas se tem uma coisa que lembro, e lembro bem, é de quando minha mãe lia comigo quando era pequena, todas as noites. Lembro do aconchego desse momento, mais do que tudo – a luz do abajur, a voz macia da minha mãe lendo minhas histórias preferidas. Às vezes era o meu pai quem lia comigo, mas ele preferia os gibis. Ou inventava histórias – era uma melhor que a outra, mas nunca tinham fim, era engraçado. Muito provavelmente porque ele não sabia como terminá-las, mas isso me despertava uma curiosidade enorme!

 

A Taba: Qual a sua memória mais antiga, ou mais preciosa, ligada a livros e leitura?

Daisy: Pois sabe que lembro justamente desse aconchego todo em volta da leitura – eu lembro que esperava ansiosa esse momento, mas também não queria que ele acabasse nunca. Dava um trabalhão enorme pra minha mãe, e ela adora me lembrar de quantas madrugadas entrou me contando histórias. Houve uma época em  ela começou a  tentar me enganar e pular algumas páginas, para que eu pudesse dormir logo. Mas eu logo alertava: “mãe, você pulou uma parte!”. Imagine só que ela achava que ia me enganar – eu sabia as histórias de cor, só queria mesmo que ela contasse tudo outra vez!

 

A Taba: Quando pensa nos momentos de leitura da sua infância, quais são as outras lembranças que carrega?

Memorias literarias Daisy Carias_A Taba_Francisco com os livros que eram da mae quando crianca

Daisy: Bom, eu lembro super bem desses momentos antes de dormir que contei ali em cima…mas também lembro de ver meus pais lendo sempre, meus irmãos também. Isso foi importante, não tinha como não se interessar pelos livros em casa com tanta gente lendo. Meu pai era professor universitário e um homem super curioso: vivia fazendo pesquisas, era o cara das enciclopédias. Eu adorava mexer naqueles livros grandões, pareciam guardar coisas tão importantes. Minha mãe também lia muito, tinha sempre um livro na cabeceira que mudava rapidinho. E tinham meus irmãos e seus gibis, livros informativos sobre bichos, peixes, dinossauros. Tinha um pouco de tudo lá em casa!

Outra memória divertida é da livraria que a gente frequentava. Era uma livraria no centro da cidade, e era o passeio mais legal do mundo para mim. A gente ia nos sábados, geralmente, e eu passava horas no fundo da loja, onde ficavam os livros infantis e juvenis. Foi nessa livraria que comecei a montar minha biblioteca, que hoje é também dos meus filhos. Acho um barato ler os livros da minha infância com eles! (na foto, Francisco com a caixa de livros que foram de sua mãe.)

 

A Taba: Consegue listar alguns dos livros favoritos da sua infância e adolescência?

Daisy: Muitos! Tive uma sorte danada: tenho muitos desses livros até hoje, porque minha mãe guardou todos. Ela me presenteou com eles quando me descobri grávida do Francisco, meu primeiro filho, hoje com 6 anos. Isso mexeu tanto comigo! Ficava imaginando como seria bom ler, como minha mãe fazia comigo, junto do meu filho. É lindo pensar nisso hoje, aliás, porque repito aquele mesmo ritual da minha infância com ele: a escolha dos livros da noite, o abajur, as histórias repetidas infinitas mil vezes.

Mas enfim, os livros! Quando ela me entregou aquela caixa, veio com ela um turbilhão de memórias, só boas! Na infância, gostava muito das histórias clássicas, os contos de fadas mesmo. Tínhamos uma coleção da Disney que vinham 4 livros: mas era um só “O mundo da fantasia”, de contos de fadas e princesas, que a gente lia e relia – tá acabadinho, coitado, mas tá bem guardado. Tinha a Lúcia-Já-Vou-Indo (Maria Heloísa Penteado), tinha O Sapato Que Miava (Sylvia Orthof), A Alegre Vovó Guida (Tatiana Belinky). Eu também já curtia um mistério, muito, desde bem pequenininha! Lembro que amava O Barulho Fantasma (Sônia Junqueira) e o Na Casa Velha da Praia (Camila Cerqueira Cesar). Todos esses eu já reli infinitas vezes junto com o Francisco, é tão legal!

Depois, mais velha, talvez com 9, 10 anos, fiquei obcecada por uma coleção chamada “Salve-se Quem Puder”, que tinha um mistério a cada página. Os livros da Stella Carr e do Ganymedes José também, eu adorava: O Solar Assombrado, O Crime Atrás da Porta….ainda tinham os livros do Pedro Bandeira, a Coleção Vagalume. Os livros de mistério eram meus preferidos, devorava!

 

A Taba: Você acha que o adulto que você é hoje reflete a criança leitora que você foi? De que maneira?

Daisy: Muito. A escola sempre foi legal para mim, curtia as aulas de português, história – fui sempre uma boa aluna (só não vale falar da matemática)! Na faculdade segui o rumo dos livros também: fiz jornalismo. Hoje uma das coisas que mais gosto de fazer é contar das minhas leituras com o Francisco (e agora o Vinícius também) no blog “A Cigarra e A Formiga”. Tá aí: os livros da minha infância influenciaram tanto minha formação que viraram minha principal atividade (além de mãe, claro).

Inclusive hoje, quando falo sobre literatura infantil, sobre os livros que leio junto com meus filhos, me baseio na minha vivência de pequena e na vivência com eles. Não sou especialista na área, mas me sinto inserida nela porque a vivo desde criança e reproduzo tudo isso com meus pequenos – me sinto à vontade conversando sobre o assunto, é bom demais!

 

A Taba: Em geral, como acha que as experiências de leitura na infância têm impacto na formação e crescimento de cada pessoa, independente de se tornar uma atividade profissional?

Daisy: Acho muito bonito como a literatura amplia nosso olhar: o cotidiano é levado para outro contexto, a gente enxerga tudo de outras formas. Ela ajuda a gente se colocar no lugar do outro, ter empatia – coisa que anda tão em falta ultimamente! É, acho que a literatura no fundo nos humaniza: quando a gente lê e enxerga algo que vive ali, na ficção, é quase uma terapia, não é? A gente entende nosso drama individual (esses que todo mundo tem, inclusive as crianças) de outro jeito, de uma forma universal. É libertador!

Além disso, ler desperta uma curiosidade enorme. Eu lembro como era curiosa quando criança, e olha, acho que ainda sou – ando sempre procurando saber mais, estudando sobre assuntos que me interessam. Vejo a mesma coisa no Francisco, e é lindo ver esse interesse todo. Um livro leva a outro, que leva a outro, que cria um universo de referências que não se perde nunca! A gente aprende a questionar, a parar para perguntar (outra coisa que anda em falta!) – e principalmente, a buscar novas respostas, procurar outros lugares. Isso é lindo demais!

 

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E você? Tem lembranças marcantes da infância envolvendo livros e leitura? Está criando essas memórias com alguma criança? Conte pra gente nos comentários!




Participe da conversa!

Em casa, minha mãe Socorro Marcos da Silva reunia eu, minha irmã Dayse Da Silva, meu irmão Djair Guilherme e meu irmão Felipe Correia ao redor da cama e lia passagens da Bíblia e também contos de uma coleção chamada “Reino Colorido da Criança.”
Lembro das imagens e das histórias desse livro até hoje. Tenho eles comigo. Com as capas rasgadas, mas pontinhos esperando para serem conhecidos pelos meus filhos.
Meu pai, Djair Guilherme da Silva foi e é também um grande leitor. E povoou nossa casa com revistas e jornais de todos os tipos.
Assim, a palavra falada e escrita sempre esteve presente me minha vida. E as histórias dos livros construíram a minha Casa Imaginária – onde às vezes habito e de onde moram os sonhos.
Alguns deles, mesmo os mais incríveis, às vezes, tornam-se realidade. Como é o caso da A Taba! :-)