Cheiro de Letra e Praia

DSC_0930_2Era praia, era sol, mar e vento.

era muita gente: família viajando junto.

era muita novidade.

Uma semana de casa cheia, convivendo com primos até então distantes. Um tempo feliz, quando passam de conhecidos de família a amigos.

DSC_0297_2De dia era a areia. Eram as ondas.

À noite, de banho tomado e pé sujo, eram perseguições de lanterna, jogo de cartas, desenho,

e eram livros.

Mas nada de “hora da leitura”. Cada história criava pernas e andava pela casa o dia todo, contada por variadas vozes. O mais novinho da turma, de um ano e meio, era o que mais puxava a fila: já acordava pedindo leitura, como quem pede leite.

DSC_0169Às vezes, era um adulto que acordava os livros. Começava contando pra um, e logo todos se amontoavam ao redor das palavras. Nunca quietos. Sempre acrescentando novas partes. Teve um dia que o barulho era tanto que abafou o som da novela, e os outros adultos cederam ao momento.

E teve leitura na cabana, leitura na mesa, no chão, no sofá, e revisitaram muitas e muitas vezes os três únicos livros levados… Mas a história de cada um sempre mudava, porque a cada vez que abriam as páginas, a brincadeira era outra.

E com história decorada, liam e liam sem saber que já sabiam ler.

DSC_0552_3E as histórias dos livros se misturaram à voz da mãe, da tia, do tio, do pai, da vó,

às muitas vozes criadas e gargalhadas nas variações de cada um.

e à alegria de estar com a vida em festa.

e ao sabor das muitas aventuras inventadas por eles mesmos.

E os dias se passaram. Os livros se gastaram, suaram de maresia.

Mas voltando pra casa, novas letras esperavam. A praia ficou lá, mas a paixão pela história veio na mala.

Só a TV, coitada, ficou sozinha num canto… virou móvel imóvel, criado mudo, apoiando a foto do mar lá no fundo, crianças na frente e risadas infinitas no primeiro plano do papel.

 

 

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Comecei ouvindo histórias com arroz e feijão, numa tentativa do meu pai de me fazer comer. Desde então, dentro de mim viraram nutrição, necessidade. E da boca do pai, da mãe, da avó, passaram aos gibis, aos livros de infância. Um caminho inevitável. Cresci e fui contar histórias no cinema, no teatro, e sempre no papel, refazendo a trilha dourada das palavras e da imaginação. Todas me alimentam: as inventadas e as colhidas nos campos da realidade. Mas agora, com três filhos pequenos, me rendi novamente ao sagrado daquelas histórias secretas, que vem daquele jardim com luz muito antiga, dentro da gente. Então tento escutar o canto, e contar em conto, pedindo para que o encanto volte a se fazer presente.

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